|
Por Dani Costa a árvore ouvi os gritos vindos da varanda e não entendi. às sete horas da manhã é mais difícil assimilar as coisas. tenho dificuldade para dormir e quando fecho o olhos sonho escuros e abismos e dores e ... enfim... não são imagens boas. todas as noites. sem exceção. então, às sete horas da manhã dói ouvir e entender. eles gritavam na varanda com pão doce na mão. às vezes é assim, eles tomam café da manhã na varanda. e ontem deram de cara com um enorme trator derrubando uma árvore no terreno da frente. derrubando uma árvore e duas casas. "mãeeeeeeee". "mãeeeeeeee". tentei ficar indiferente. de costas, ajeitava a mochila de cada um, organizando uniformes, escovas de dente, toalha... a creche é como uma hospedagem e todos os dias é preciso levar a muda de roupas. "mãeeeeeee". olhei serena, aprendi que com o desespero de filho é preciso fazer um olhar de "tudo bem" para não piorar a coisa. "mãeeeeee". "o barulho do trator assusta vocês?" "não. eles tão derrubando a árvore. é da natureza, eles não podem fazer isso. a mãe natureza tá perdendo uma árvore", fala a menina. "é! o 'tator' tá jogando no chão!", berra o mais novo. "entendo... acredito que estejam preparando o terreno para construir um prédio. logo todo o bairro terá prédios como o nosso". "mas e a árvore, mãe? eles não podem aproveitar para servir de sombra?", rebate a garota. "acho que não... existem projetos. esse trator segue um projeto". "não gosto disso, meu coração dói muito com isso. a mãe natureza já sofre demais". "é filha, as mães são umas sofredoras". "mãe, eu vou falar para eles que isso tá errado, posso? Pedro, vem comigo e grita que tá errado". dez minutos depois os dois estão exaustos de gritar para o trator parar. as mochilas estão prontas. eu continuo morrendo de sono, mas pronta também, já posso levá-los à escola. "mãe, o homem do trator não ouviu a gente. você espera eu rezar?" "sempre". "papai do céu, segura na mão dessa árvore aí, porque ela tá sofrendo porque caiu no chão. papai do céu ama essa árvore porque ela foi jogada fora. te amo papai do céu. mãe, vamos para a escola".
os filhos são uns sofredores.
Escrito por Dani Costa às 23h19 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] poema vivo
(dos escritos de Cartas Secretas Jogadas pela Janela)
meus pés ficam leves quando observo o mar parado do porto de Vitória. e meus olhos sempre se espantam com as gigantes estruturas metálicas erguidas, desde quando era menina. muito mais que agora. seus ganchos, suas correntes, seus desafios de levantar pesos além do imaginado. tudo é grandioso no porto. os navios me apavoram e me fascinam. como podem entrar no estreito canal com tanta graça e magnitude? a água quase não se mexe. ela balança apenas. é como um homem em toque extremo de gentileza. e quem nasceu, cresceu, viveu nesta cidade sabe que essa coreografia engenhosa dos navios pode ser vista a qualquer momento. é essa a segurança que sinto aqui. algumas coisas nunca mudam. o porto sempre estará lá, com seus braços metálicos e seus caminhos de luz que vão de uma ponta a outra dos gordos barcos, enfeitando a noite em frente ao Palácio. ali, bem no meinho do Centro. onde eu passo todo dia e fico tão feliz.
muitas escadas levam à Cidade Alta. aquela cidade que é velha. tem casas velhas, Catedral velha, mas com ar tão novo, tão moderno, tão atual. é o lugar onde as pessoas se movimentam como formigas operárias, se deslocando com agilidade pelas ruas cheias de quadradinhos escorregadios. na minha infância, quando diziam o nome deste bairro, eu imaginava que ficava tão no alto que era como um prédio - bem perto do céu. e é mesmo, nunca estive enganada. dali, quem firmar bem a vista enxerga os pássaros brancos com suas penas acetinadas sobrevoando o porto. é possível ver o dinamismo do centro da Ilha. é possível não sentir vontade de ir embora.
meu artista, quero contar-lhe sobre um amor que tive (eu acho) e hoje já não tenho mais. ele durou pouco. eu o comparo ao ar do Centro. não é nobre, agora, mas reside no coração dos descendentes desta cultura. hoje, ele é um amigo que cuida de mim e não permite que nenhum mal me aconteça. tudo é lento e eu não esqueço, de pirracenta e poeta que sou. não esqueço a sinfonia de fadas borboletantes que me cercaram naquele momento. todos riam. eu ria. ele, hum, putz. ele sempre me olhava e ria também, forte, olhos apertados. atenção fixa. eu na tentativa de não entregar os arrepios.
mas o atrevimento foi todo meu. entre piscas-piscas e música muito alta, estendi minha mão direita, como princesa donzela que sou. nem tão donzela, creio. assim, ofertei minha mão, que ele beijou prontamente. muitas luzes azuis, não amarelas, porque era assim mesmo. pensei tanta coisa. olhei o rosto. é diferente. é mais velho que eu, um sábio talvez. tem cabelos que eu afagaria, camisa que eu não manteria por muito tempo assim... tem gentileza, postura, acho que muita hombridade. lembrei de Drummond contando dos dentes de Fulana, do sorriso, do tudo dela. seja lá quem ou o quê ela fosse. eu pensei. assim, em fração de segundos pensei tudo. e daí veio essa de fazer dele meu Fulano, meu Mito, minha literatura, minha poesia, meu mundo. dentes refrigerados em boca que não conheço.
e o misto de mato com urbano? ele tem disso, coisa campestre com asfalto. que nem morar em prédio, mas correr para a casa de campo ou praia, nos momentos de fuga. até pensei nisso naquele beijo na minha mão. é... pensei como deve ser viver ao lado dele e quando sentir vontade de fugir, continuar ao lado dele, afinal. tudo, porque ele é misto. tem os dois lados que completam alguém.
meu amigo, talvez você diga que ninguém pensa tanta coisa em segundos. eu congelo o meu tempo e me ponho a pensar. eu tenho a manha. Poesia traz um labirinto à cabeça, mas também poderes sobrenaturais para quem a vive. e o meu poder é pensar trezentos trilhões de toneladas de pensamentos por segundo. como os navios gordos. então já expliquei.
os dias passaram. uma onda de vontades me afogou. e eu cedi. cedi aos encantos do homem que estava destinado a ser meu grande amigo. a ser minha amada cidade histórica cravada no meu coração. em breve momento tive o corpudo cheirando meu pescoço. e ele admirava o quanto eu deixava de ser menina. fui decidida. um relâmpago cheio de impulsos. ele se desnorteou e me amou daquele jeito indiferente.
me estreitei em seu corpo e o deixei que me dividisse em duas - assim, uma puta, porque ele dizia, 'não és menina mais' - pernas para cada lado e sua essência vigiando o momento certo de se expelir em meu interior. sim... naquele corpo me diminuí e o deixei crescer, tornar-se homem grandioso, soberano - ao menos de todos os travesseiros - e o fiz sentir o poder de possuir uma mulher e mingua-la à exaustão, ao cansaço suado e delicioso... e ele dizia, ai, "meu poema vivo..."
por muito tempo ouvi isso. sou o seu poema vivo. sou sua profusão de versos escandalosos. sou o que ele clamou e planejou por alguns meses. sou uma ladeira antiga, de séculos passados, com casarões requintados de paredes muito espessas. ele é meu porto seguro agora. mas antes não era. quando vivíamos de sexo, ele era minha insegurança. ele amava minha carne que eu ofertava. ele amava a minha pouca vergonha, minha reza baixinha, perseguinando-me e agradecendo por tê-lo em meu colo, por tê-lo me sugando cada dia com mais intensidade. ele me fazia ter medo. um pavoroso. de um dia abrir meus olhos e não vê-lo. e ficar então só o pouco do zelo que teve o cuidado de demontrar por mim.
é, amigo, nada é mesmo menos fugaz. as coisas são como vapor. elas são quentes e, por assim serem, se evaporam. trepadas são assim. cada coito quente, um pouco do resto da gente se vai. e um dia, não sobra nada. nem um murmúrio. porque o que é quente não dura. nem mesmo morno.
anseio te ver, já disse. guardo-te enclausurado em boas lembranças. quando chegar aqui, vou levá-lo ao porto. você verá atletas remando em canoas conjuntas. e verá pescadores preparando suas redes. você terá inspiração. eu ficarei quieta para que te ocupes de muita meditação. eu te aguardo, senhor. pensando que tipo de homem você é. que tipo de homem se revelaria na quentura das coisas que não duram para sempre. pensando em como eu o veria se evaporar diante de mim.
Escrito por Dani Costa às 11h27 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] o observador de céu ele tem uma relação especial com o céu. quando saímos cedinho para a escola, joga a cabeça para cima e vê a disposição das nuvens. gosta do sol, mas fala mais da lua. notei isso. no fim da tarde, quando tudo está laranja no horizonte, ele confunde um pouco: "tá vermelho". "não, isso é laranja", corrijo. se chove, encara o nebuloso tempo, se retém diante do espaço acima do seu corpinho magrelo e espreme os olhos. já sei que, quando faz isso, procura uma torneira no céu. à noite, fixa-se nas estrelas. da varanda do apartamento ele aponta e conta sozinho: "uma, duas, três...". não tem noção de que as estrelas são mega em sua natureza, sabe apenas que são mega em beleza, brilhando pontos em exatamente todos os lugares por onde ele passa. isso o intriga: "elas estão aqui também". a lua, sua querida, é dona de um dos seus espantos como um mistério que ainda há de deslindar. tem noite que está um queijo redondo, pertinho de casa. tem noite que está 'quebrada' - "olha mãe, só o pedaço" - tem noite que é igual a um olho de gato. "miau, miau", ele fala. outro dia expliquei pra ele que dá para saber que lua teremos em seu aniversário de três anos. ele riu, "é?". eu disse, "é". "tá, mas na hora eu vejo", não se apressou e guardou consigo o desejo. em cima das minhas pernas, deitada no chão, o coloco bem no alto. ele mergulha em meu olhos, estica as mãos... o observador de céu se põe a adejar como num pátio aberto. fecha os olhos, ri e grita a felicidade do que acha que é certo: "eu sou um avião!".
Escrito por Dani Costa às 20h21 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] modus vivendi fragmentos. utilizarei pedaços de memória de um fim de semana congelante na paulicéia. notei que minha barriga não parava de doer. doeu a segunda-feira inteira. pensei que aquela dor não devia ser minha, pois não tinha feito abdominais. nem levado socos acima da "boca do estômago". não tive tempo de refletir sobre isso, mas encontrei a resposta na primeira gargalhada: minha barriga doía de tanto que eu ri. de tanto que eu ria. de tanto que abri minha boca e relaxei os músculos que são dela, rindo quase que convulsivamente das coisas mais rebeldes e tolas e, por isso mesmo, delirantemente merecedoras de riso meu. esse de doer minha barriga. então, imaginei que cada fragmento é um título de filme ou livro. e ficou assim:
* "declarações que nunca fiz para muita gente". muitos ficam para trás. ainda. todos admitiram. * "a forma de narrar o mundo é um poder". que cabe a qualquer um. que coisa. * "não vamos ver esse filme porque é romântico. e hoje somos só amigos". nós vimos o filme. * "foi a coisa mais romântica que me aconteceu sem querer", diz o amigo ao relatar a descoberta de um incrível jardim de inverno em Tiradentes. * "o que você quer fazer agora?" (esse é o título) "ver a torre que muda de cor aqui mesmo na Paulista". (10 graus). "Então, vamos andar". * "o bom sentido da maluquice! escrevam o bom sentido da maluquice!". aula no sábado. * "dia mundial da história de vida". é dia 16 de maio. * "o aprofundamento vale para todo momento". para entrevistas e não entrevistas. * "revoltas contra o domínio da razão". ou, "estava frio demais e por isso fizemos isso". * "rapsódia". * "navalha na carne foi demais para a senhora que passava mal na platéia". só eu vi. e quem tava junto. * "falar de pintos sempre traz gargalhadas". o pênis alheio é sempre algo engraçado, e nem sempre tão alheio. falamos por que queremos? * "joguei teus travesseiros no sofá porque achei que te vi beijando alguém". viu errado. a cama é quentinha. * "não suporto ler tua dor, não lerei teu livro". disse ele. "apenas uma vez", vimos no cinema. * "chegou bem? quatro fios de seu cabelo agora são meus".
Escrito por Dani Costa às 22h54 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] o peso de cada homem observou que o peso deles era como uma âncora em seus pés a segurando no fundo oceânico, evitando que ela saísse mergulhando e boiando a esmo, sem rumo, sem idéias, sem conhecimento do profundo que a espera. primeiro achou destrutivo, uma amarra que a poda, que a esquece num canto de castigo. depois, sorriu satisfeita com a contastação de que o peso de cada um daqueles homens era a medida de equilíbrio que faltava em seu corpo, sua mente, atitudes e epifanias. há tempos pensava em pedir desculpas por um mau feito com ele. mas, não lhe restou coragem alguma da muita que teve na época quando resolveu sumir. não foi planejado, nem corrido. foi só um momento que era para ser e não para continuar. ela juntou uns livros, a escova de dente, três maçãs da geladeira e foi. nunca ligou, nunca atendeu. nunca respondeu e-mail, nem carta de envelope verde. sumiu, como se jamais tivesse existido entre as paredes daquele apartamento onde, em algumas noites, se refugiava e, entre gemidos e sussurros, dizia gostar muito, mas ainda era melhor que as pessoas não soubessem. ele passou a ser seu peso na consciência. diário e dorido. soube por próximos que ele se fez de incompreendido e largado, ofendendo todas as mulheres pela desatenção desta única que resolveu não amá-lo. toda a geração de moças nascidas nos anos 1980 foi condenada à solidão nas palavras cuspidas da boca dele, como uma terrível praga que assolaria a humanidade, atingindo as malfeitoras devoradoras de pênis. e esse peso da imagem dele em sua cabeça era essencial. com ele segurava a ansiedade e descobria o limite dos sentimentos nos braços masculinos que eventualmente a enlaçavam. nada podia ser exagerado, sempre um medidor apitava o momento certo de partir ou amanhecer. essa era a âncora para não surtar corações alheios. nem o seu próprio. quando soube que ele a olhava com reprovação pelo canto do olho, ficou puta da vida. nada que fizesse era bom o suficiente. o ar ficava pesado. um arrastado que tornavam lentas as horas. ele olhava, secava sua alma e ela sentia na pele todo o peso paternal que contraria o que deveria ser a natureza humana: pais protegem, não o contrário. mas, tanto acostumou-se que, com os anos, o peso era uma carga leve, de efeito benéfico. ela se propôs a superar o pesado homem de mil olhares tortos todos os dias, o tempo todo. e descobriu sua potência na voz imperativa e nos rascunhos de vida que se transformariam em arte. aquele peso era o protagonista da grande mulher que se tornaria antes da obrigação de ser qualquer coisa. ela se contorcia encolhidinha se protegendo do frio. subia manhosa em meio corpo dele e alegava sentir o pior frio do mundo, mesmo que 17 graus não seja extamente tão gelado assim. ele ria e contava histórias fascinantes sobre o heroísmo de um homem que arrisca a vida. foi um acordo entre os dois: cada noite ele contaria uma história até que ela dormisse. tudo que ele queria é que ela ficasse bem. e dormisse leve e quentinha. ela sabia que todo esse ritual era importante, mas duvidava que as histórias fossem só suas. sempre achou que tudo aquilo era cumprido também em outras camas, em outras noites, tão geladas quanto essa. o peso dele era o oposto de todos os outros. na verdade, não havia o peso dele. ele detestava fazer o coito por cima. gostava do espetáculo da imagem dela bem à sua vista, seja devorando-o sentada num galope, ou de qualquer outra forma em que vê-la nos olhos não fosse difícil. em que apertar sua cintura fosse só um esticar de dedos. não podia, ele não queria ficar em cima. e ela foi achando aquilo uma ausência. o gozo era fácil, mas fazia falta sentir seu arfar vindo do domínio do peso dele sobre o seu corpo. ela queria a medida dele distribuída na medida própria: os pesados braços enroscados nos seus, a barriga reta sobre seu umbigo frágil, as coxas rijas contraindo as coxas brancas dela. esse era o efeito - o peso que a dominaria e a deixaria sem ar, completamente, nos movimentos que a tornaria compacta, espremida, suada, perdida e encontrada na diagonal do colchão. ele não quis saber de nada disso. jurou o melhor dos prazeres com as posições que ela enfeitava para ele. de fato, uma jura bem certa e jamais desistida. até o dia em que, numa despedida de madrugada, na correria dela para pegar o vôo, ele passou a mão em seu rosto. ela esquivou o semblante, as idéias, os atropelos das palavras. ele lamentou aquela partida em dizeres que ela não ouviu, mas sentiu no rosto sob as pontas daqueles dedos inefáveis. aquela tinha sido a viagem da decisão de não mais se compartilhar pesos. nem os que abatem o coração com suas verdades. o peso dele era o que evitava seu medo. e estava guardado nas bochechas dela. e é o ponto de equilíbrio entre o que pode ou não viver. o peso da despedida representa a liberdade que lhe foi dada para amar quem mais quiser. sem restrições. na tarde de domingo o homenzinho registra um febrão danado. corre a ampará-lo com medo de piora. cada susto leva com aquela pele quente, mas não amolece e segue firme na tentativa de curá-lo. faz-se médica, benzedeira, enfermeira. seus braços doem tanto, que evita movê-los desnecessariamente. o peso dele é o amor em toneladas. vem jogado em suas pernas quando chega do trabalho, e a cabecinha bate desajeitada no ventre. é sempre assim e ela sempre fala "ai". o peso dele era uma pluma encaixada nas mãos dela, até hoje serem 14 quilos que embala no colo e passa cinco horas circulando pela casa. o peso dele é registro na sua retina. na sua saudade. no seu discurso, na sua bondade. no seu compromisso com a melhor mulher que tem que ser. o peso de cada homem é o peso que um dia adotou ter.
Escrito por Dani Costa às 00h32 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] desaparecidos assumi os desaparecidos. na verdade, me fizeram assumir. no jornal nunca ouvi dizer de alguém que gosta de escrever sobre quem sumiu. são poucas linhas, texto minúsculo. fica no cantinho da página com a foto da pessoa. nem sei se dá leitura, mas o fato é que muita gente some, tenho uma pilha gigante de cópias de boletins de ocorrência com as mais variadas formas de se perder no mundo. adolescentes, adultos e idosos. as histórias vêm para mim rabiscadas em letras de policiais que, certamente, fizeram o melhor que podiam para entender o sumiço. quase sempre fico imaginando como foi. e tento revelar o que pode ser importante, porque para quem procura por alguém, aquele pedacinho de jornal com meu textinho é uma esperança. chegar na recepção, deixar o BO, a foto - às vezes a única que possui do desaparecido - e permitir que as pessoas saibam o que aconteceu, é uma exposição. e uma esperança. e eu sou a porta-voz dela com meu texto miudinho. "ela entrou em uma Parati branca e nunca mais voltou, nem foi vista". isso eu li hoje, no depoimento que um marido deu para o registro do BO. a esposa trabalhava num salão, saiu, entrou no carro de alguém e puf, veio parar na minha coluna. deduzo várias coisas, fantasio até. hoje pensei que ela estava de saco cheio da vida e resolveu ir embora com seu príncipe dono de um automóvel branco - tal como um cavalo branco. prefiro pensar que ela está feliz, que isso foi uma decisão. a menina de 14 anos é terrível. "já sumiu várias vezes da casa da avó, com quem vive desde bebê. seus pais brigam desde sempre e ela ficou perdida". esse é o resumo. e a linda garota cheia de maquiagem, - a foto é dessas de estúdio meio nubladas - espera-se uma fujona, fica ao lado do assalto com morte, na página de polícia. dava medo ver o sangue de um lado e ela de outro. em geral, elas somem com namorados e voltam com filhos. um genro faz apelo, "minha sogra sumiu. ajudem-nos". é uma senhora que, de acordo com relato, não tem "distúrbios mentais" - o que é extremamente comum ver nos BO's - que não foge de ninguém, que não sofre falta de memória. "teve uma crise emocional", conta o outro. foi isso, a dor da emoção atingiu seu coração e ela pegou a estrada. foi embora. quis se curar sozinha. um tempo, ela só quis um tempo. tomara. o rapaz "catou" uma bicicleta roxa feminina e disse que ia ao supermercado. algum vento o fez mudar de idéia. ou, alguém o encontrou. ou, a bicicleta era mágica e ele saiu voando. há mais de dois anos ele foi ao supermercado e não voltou. e o BO dele vem para cima do meu teclado. o outro rapaz se arrumou todo, tênis novo, bermuda colorida. foi para o baile zoar com a galera. a família não sabe mais dele. eu só sei que ele está aqui na minha mão. e eu desejo profundamente que esteja bem, pronto para dançar de novo. a menina da semana passada parecia desolada. essa, ao menos, deixou um bilhete: "na internet sou feliz. não fico só. não me procurem nunca mais". adolescente. sumida. eu te desobedeço sua tonta. porque também fugi aos 16 anos e digo, em pouco tempo dá um vazio. eu ignoro teu bilhete e te procuro. sim e sim. e se eu quisesse sumir? quase todos os registros que chegam contam de pessoas que saíram de casa e não voltaram. meu ponto de partida seria minha casa? sumiria daqui? eloqüente, vagaria? com a mesma roupa, sem levar nada? como vejo, como acontece, como eles fazem exatamente todos os dias sem deixar rastro, em centenas de lares? e a mulher que deixou os filhos com a mãe e foi-se. ela voltou? quase nunca me contam. e eu sofro pensando neles. e crio uma fantástica resolução para tudo: eles vieram, abraçaram seus entes, todo mundo se desculpou e a única recordação que sobra é meu texto, aquele pequenininho. com a fotinha. que talvez embale o peixe na peixaria, ou vá para a gaiola do canarinho. e se eu sumisse acho que diriam: um dia ela estava lá. agora não está mais. simplesmente.
Escrito por Dani Costa às 22h22 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] em um instante I (continua embaixo) o sinal fechou. vermelho. em frente ao instituto dos cegos. o alarme disparou para travessia. ela esticou a perna, mas zapt!, nem inteirou o passo. um carro em alta velocidade lhe arrancou o fôlego. um vento cheio de fumaça apavorou os sentidos. as pessoas em volta correram, os que esperavam ônibus no ponto bem em frente se juntaram e ficaram olhando. se sua audição tivesse falhado, não teria segurado o passo e seria atropelada. um instante apenas, menos de um segundo, e tudo teria acabado. era noite de sábado, um amigo a esperava perto da ponte, na Praia do Canto. se arrumou apressada, um vestidinho típico das mulheres litorâneas. mas, estava ventando na janela, que de tão barulhenta lhe chamou a atenção: "melhor trocar de roupa, está ventando". e atrasou uns minutinhos. andou muito rápido até o sinal e esperou. não olhou para os lados. mas ouviu lá longe um automóvel furioso sem vontade de freiar. zapt. um zapt. as pessoas do outro lado lhe faziam sinal, "atravesse!!". ela só queria pensar e nada respondia. tudo podia ter acabado ali. um sussurro: "meu Deus...". e lembrou das crianças. quando a mais velha tinha menos de um ano e falou "mamã" pela primeira vez, era madrugada. muito menina, a mãe limpava o seio que teimava em escorrer leite. sempre o esquerdo, cheio, cheio. ajoelhou-se, mirou os olhos gigantes da garotinha e pediu "repete". - "mamã". talvez fosse só isso que esperasse o tempo todo. toda aquela vigília ao lado do berço, sozinha, com o cabelo amarrado de forma improvisada, jorrando leite em todas as blusas... e nem adiantava doar para bebês sem peito de mãe no hospital de Bento Ferreira - aquilo parecia que ia jorrar para sempre. "mamã". como lhe fez bem. foi sua maior identidade. a garotinha gorda repetia e a mãe chorava, muito cúmplice, muito comovida, muito certa que tudo valia à pena. mesmo dormir sentada. mesmo ouvir seu próprio eco no corredor, quando o marido não absorve qualquer tentativa de diálogo. mesmo que estivesse prisioneira naquele apartamento para sempre. depois do zapt. é isso, um instante apenas. refletiu em poderosos segundos toda sua realidade. o menino, filho caçula, jamais agüentaria ficar sem ela. de todas as mulheres que o cercam, a mãe é uma referência de peso. ela cochicha em seu ouvido "Caso pluvioso", de Drummond. quando o sono não vem, canta alto, depois vai ficando baixinho... ele acompanha o refrão, melodia direitinho: "bate outra vez, a esperança no meu coração, pois já vai terminando o verão, enfim..." lembrou de coisas que não poderia esquecer jamais. "quando foi a última vez que fiz amor?". não sabia dizer. se soubesse que aquela poderia ser a última, teria certeza, teria guardado cada detalhe. mas, sabia qual foi a última pessoa. e sorriu. assim como os cegos, ela o obrigou uma venda nos olhos e o arrepio do toque sem saber o trajeto dos dedos. foi melhor que o gozo em si. foi o mais próximo do amor que teve em seis anos. ou em 26. os sonhos... tantos sonhos nas raras noites em que não tem insônia... descobriu o que tinha visto no pesadelo que teve num hotel de paredes e carpete mofados, lá no distante bairro da Liberdade. "posso vencê-lo. foi só um sonho". muito ajudou passar a dormir do outro lado da cama - mais distante da porta - para exceder os limites das coisas boas, não das ruins. teve um sonho que lhe pareceu um tormento, depois, de certa maneira, engraçado. ela estava em pé, na ponta dos dedos, tentando prender no mural da sala dos fotógrafos - na redação em que trabalha - uma pauta a ser feita. mas, não conseguia porque segurava a toalha em que estava enrolada. apavorada, olhou em volta com medo de que alguém a visse daquele jeito. mas, encontrou uma grande loucura. se aproximou da porta e encarou o cenário: nas baias, cada repórter, editor, revisor, estava diferente. uns com roupa de praia, boné, chinelo, bermuda. outros com pijama, sentados em travesseiro confortável. alguns usavam roupa de baile, suntuosas, magníficas. poucos ainda arriscavam um jeans, mas os que estavam assim assumiam mais personalidade: rasgados, tingidos, velhos ou brilhantes. não eram jeans para trabalhar, sim para viver. atônita, viu aquilo. umas 150 pessoas trabalhando como se não estivessem no trabalho. seu cabelo pingava na toalha, sentia frio. e pensou: "não há mais jeito para a vida pessoal". quando acordou calculou o que aquilo poderia ser, e meditou que o sonho era conseqüência de uma frase ouvida uma noite antes. a filha lhe pediu que chegasse mais cedo do trabalho. "vamos ver, tenho tantas coisas e...". - "mãe, já sei, só se der. você é a rainha do 'se der'". foi isso. é preciso haver espaço para a vida pessoal. Escrito por Dani Costa às 21h58 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] em um instante II (continuação) tanto pensou naquele sinal. achou que poderia sentar ali. mas, atravessou com cautela, as pernas ainda estavam bambas. as pessoas a abraçaram, gente que ela nem conhecia. avistou seu ônibus vindo e embarcou. continuou a pensar. quando deu a última gargalhada? quando riu muito? pensou, "foi no almoço, quando um amigo me contou que foi confundido com retrato falado de um estrupador". riu mais um pouco, mas depois lembrou: "não, foi em casa". foi na noite que fez plantão no trabalho e voltou exausta. estava passando um filme besteirol de terror. ela ria muito, apesar da reluta em assistir aquele ridículo. ele, um carinho da faculdade que ainda perdura, chegou na porta e fez semblante de alívio: "você tá se amarrando, né?". ela sorriu mais. ele voltou para a cozinha e ela se esticou na cama para ver os passos dele. "estou uma chata cansada e ele me agüenta. e ele só quer o meu bem. ele só quer que eu ria". e foi assim. ignorando os solavancos do ônibus, pensou no senhorzinho da clínica de fisioterapia ao lado de seu prédio que puxou papo: "você é graciosa, inteligente. do tipo que não força inteligência". ela ficou muito feliz. porque já estava cheia de gente da raça masculina tentando qualificá-la. o senhorzinho, ao menos, conseguiu uma definição com dois minutos de conversa. "mesmo que me achasse uma ignorante, ainda o veria como um homem decidido". o idoso complementou: "quem quiser tentar que tente. não seja um dicionário ambulante cheia de definições. não fale da vida baseada na teoria dos outros. não diga 'como Kafka, no livro tal...'. diga o que vem de você, das suas percepções, mesmo que já tenha lido tudo. não compare a arte, não defina ninguém. fale o que você vê". "taí", ela pensou. "eu sabia disso e só precisava de alguém para concordar comigo". qual foi o último pranto medonho? essa pergunta teve resposta imediata. talvez não soubesse dizer a razão exata do choro, porque era uma mescla de alívio com alma pecadora. é errado não desejar um filho? aquele que na barriga ainda é só um grão? foi um ano escabroso. um segredo que virou um redemoinho no coração. três dias pensando na vida e à espera de um jeito milagroso, que não dependesse de suas mãos, de suas decisões, de um abraço do homem paulistano que não sabia que poderia ser pai. e milagres acontecem. de noite, a janela aberta e a luz do poste ferindo os olhos. um cochilo, um sonho ruim, um acordar cheio de cólica. a mangueira despencando fruta no telhado do vizinho. se desfazendo, com a ventania, daquelas que ainda não estão maduras. foi natural e certo. hoje, quando vai forrar a cama com lençol, se depara com a marca redonda de sangue no colchão e se arrepia. "foi um milagre". cheio de pranto. o ônibus que dá voltas na Praia do Canto vai se aproximando do ponto. ela desce, meticulosa, assustada. passos miudinhos. qualquer buzina acelera o coração. "mais um medo não é bom". a idéia da morte causa taquicardia. qual medo já foi mais intenso? hum... qual? "volto ao jardim, com a certeza que devo chorar, pois bem sei que não queres voltar, para mim..." esta música jamais sai de sua cabeça. como trilha sonora de uma vida. qual o medo? esforce-se... pense com calma... "queixo-me às rosas, que bobagem, as rosas não falam, simplesmente as rosas exalam, o perfume que roubam de ti, ah.... devias vir, para ver os meus olhos tristonhos, e quem sabe sonhavas meu sonhos, por fim...". "eu sei". ela lembrou qual foi o medo. era iníco de 2007. entrou com o namorado que tinha na época no apartamento. ele encontrou tudo que ela precisava: um lar perto do trabalho, da escola, do mercadinho. arrumado, com varanda e suíte. ele estava eufórico: "você vai morar aqui com seus filhos". ela ficou incerta... "não posso, é muito caro, tem que ter muito dinheiro...". "pensa então, vê se dá". ela parou no corredor e viu as paredes. os quartos. o da menina, o do menino, o dela. definitivamente dormir no chão da casa da mãe lhe parecia uma idéia cada vez mais deprimente. e obrigar os filhos a isso também. então, concluiu - a solução seria trabalhar até os ossos doerem e passar alguns anos pagando empréstimo consignado. foi assim. a vida é fugaz. e essa frase é brega. nada pode ser considerado definitivo. brigar com quem se gosta. falar palavrão quando as coisas não vão bem. hoje, febril, ela delira algumas questões. das mais estranhas às mais sóbrias. implica com o repouso forçado devido o pedido do corpo em se deitar e melhorar. "antes doente que atropelada". claro, um delírio de quem não vai morrer, mas teme, acima de tudo, deixar a vida. essa que se parar para pensar, tem muitas histórias por dia. apenas é preciso descobrí-las e guardá-las na memória. Escrito por Dani Costa às 21h49 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] a Caixinha de Música (do livro Diário da Menina Rosa)
existe uma caixinha de música dionisíaca existe uma forma de viver dionisíaca a Caixinha surgiu em um ano que ninguém sabe, em uma época que todo mundo viveu, mas nunca houve quem conseguisse possuir a Caixinha, justamente porque ela é dionisíaca e Dionisio não pode ser só de um alguém a magia dela é impagável indefinível, inexplicável todo mundo que a ouve deixa no houve a intransigência da vida estática a que já se entregou da Caixinha saem felicidades, saem melodias furiosas e azuis, saem poesias rosas e estreladas, saem camisinhas, coxas, cinturas, dedos quase sempre pecaminosos dionisicando o momento, a Caixinha revela quem a ouve é impossível não sentir vontade de virar eloqüente e sair nu dançando no vento uma vez saiu da Caixinha um negro músico melodioso que só ele, as mulheres dionisíacas se apaixonaram o negro dançava com seu cabelo embolado, jogando ginga de pele marrom e cheiro de música de flauta para todos os lados disparatado, meu coração fez amor e orgia virou todo o ritual da noite molhada minhas mãos se apertaram no peito do negro e percorreram seu corpo ansiosas e tremidas a Caixinha de Música dionisíaca me fez tremer e abalou toda a estrutura branca que eu achava ser meu corpo, porque depois de dionisicar com a Caixinha naquela orgia, descobri que meu corpo é borboleta que flui no ar, leve e colorida e sente púrpuras que não podem ser humanas, só dionisíacas e por isso eu não tenho corpo tenho borboleta tenho tremedeira que aciono a qualquer momento entrei na disputa de me esfregar na sua pele de lamber seu pescoço e capturar seus arrepios o gozo venceu qualquer pudor e eu molhei o negro e cantei a música da Caixinha ah, a música é sempre diferente ela muda cada vez que é aberta, o som não é desta era, não é deste céu, não é desta terra ele veio de um pensamento que é mistério e custa muito tentar descobri-lo todas as músicas eram um enigma e eu quis a delícia que ela incitava disputei a mão do negro porque queria dançar presa aos seus dedos dionisicamos, eu de borboleta branca e gostosa desmedida de vontade e incontida de respeito, dançava com o cabelo bem armado, caindo em caracol pelo meu peito o negro me apertava e gritava meu sexo eu dançava, fumava cigarro, bebia tonteiras e chupava sua virilha, tudo ao mesmo tempo fadas perfumadas jogavam vinho na minha pele e cantavam palavras difíceis de poemas inventados minuto a minuto fodas ritmadas gemiam por todos os cantos e eu ria alto, toda gargalhada a Caixinha de Música Dionisíaca ameaçava acabar a corda e eu chorava já sentindo saudade do negro dionisíaco existe uma caixinha de música dionisíaca e Dionísio é festa, é farra, não é de ninguém da Caixinha saem amores admitidos que rebolam fazendo beicinho eu, vitimada e contente, beijava os braços e pernas desse amor dionisíaco existe uma caixinha de música dionisíaca e dela saem histórias cheias de palavrões, de nenhum limite, de perversões, de corpo imprensado na parede por outro acalorado existe uma caixinha de música dionisíaca e dela saem uvas roxas, frescas de natureza e doces de desejos carnais e eu mordo muitas impressionada com o seu prazer doce
com tudo, descobri que posso ser dionisíaca que posso ser perversa e gozar meus sentidos a Caixinha anda sozinha pelo mundo e agora deve antentar humanos noturnos, e agora deve circular por tempos sem hora e sem maldades sinto saudade da Caixinha de Música Dionisíaca que carrega consigo o negro dionisíaco que tatuou em mim a essência de ser feliz.
Escrito por Dani Costa às 12h12 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] as cabeças
(dos escritos de Cartas Secretas Jogadas pela Janela - sempre em produção)
bonito demais aquele jeito dele lá fora. na rua, fingindo que não está me vendo. impossível não me ver. quando solto meu cabelo, ele sempre me vê. e seus lábios tremidos entregam o que se passa naquela cabeça. naquelas cabeças...
quando ele acende um cigarro atrás do outro, sem trégua, eu já sei: lhe virei do avesso só de ficar aqui, parada. eu vejo, é assim, o sexo sempre falará mais alto, apesar dele não perder a chance de tentar conhecer minha poesia. é decente isso. talvez, a anti-romântica seja eu. a louca que busca o amor no papel e cospe nele quando se aproxima...
você precisa me avisar quando eu for exageradamente uma pessoa fria. que não sabe amanhecer com alguém. você precisa me avisar quando devo parar de ser aquilo que me faz ruim. alguém que se tem preguiça de amar. você precisa dar um berro, me sacudir, jogar-me na cara o quanto boicoto exatamente todos os envolvimentos que me surgem.
sou mesmo perversa. confessei àquele que me olha agora meus planos de parede e colchão. apenas. ele foi embora. ah, esse menino, esse velho, esse pênis que preciso às vezes... ele nem sabe que arquivei os seus prazeres particulares na parte mais completa de meu cérebro. lá, tenho devoções nunca sequer sussurradas. ele se surpreenderia com a atenção que mantive nas nossas horas. até mesmo eu me surpreenderia, se tivesse que contá-las...
amigo, é madrugada e eu a botecar mais uma vez no sereno. faço isso por prazer claro, mas essa boemia toda é necessária. preciso circular pela civilização... nossa. hoje não estou falando nada com nada. ele continua me olhando. Se eu sorrir ele fraqueja. Se eu levantar e for embora ele terá certeza: sou um boicote. um macho. um par ao contrário. ele saberá para sempre: essa é uma mulher de poucas alegrias. essa é uma mulher de nenhum amor. essa é uma mulher que não precisa de ninguém.
não há problema que ele descubra isso. essa sensação da vigília dele na minha cabeça baixa escrevendo, com meu copo de espuma aqui do lado traz um prazer quase orgástico. isso basta. gosto desta atenção. e não me importa que ele me descubra. a verdade é sempre preferível. meu efeito fêmeo de traduzir os gestos dele em relação a mim extrapola o sentido real das coisas. é uma cadeia ininterrupta de códigos e segundos eternos no meu tempo. gosto desta atenção.
mas, ele não é o protagonista dos dias de agora. não. a minha feminilidade não é gritante ao lado dele. é isso, sei agora. não tivemos uma história fabulosa. apenas nos entendemos com as cabeças. as duas dele. confesso, uma mais importante que a outra. e de fato, ele falava, eu via sua boca mexendo, ficava refletindo que ele é lindo, é simples, de uma simplicidade que possui toda uma exuberânia e marca. ele falava, sua boca mexia muito, mas só fui entender quem ele era, o que fazia, de que forma sonhava, quando o vi passar no corredor, sorrateiro, e sumir para sempre do vazio do meu quarto. eu jamais o ouvi. um lamento.
meu amigo distante. meu amigo que aprendo a amar todos os dias. não me julgue. não me entenda. o que faço - ou não - é uma maneira mais garantida de proteger meu coração de machucados sem cura. de idéias sem contestação. de caminhos sem volta. da dureza dos tormentos.
pensei muito em você por esses dias. pensei em uma idéia colorida num muro. pensei que escrever para ti tem um símbolo, um contorno, um afago, uma admiração. amo escrever para ti como se ama as flores do maracujá subindo pelas bases... é como um canto em súplica, um choro, um mimo, um definho de minha voz. e vai subindo, partindo, dizendo adeus, aquele que odeio dizer nas cartas - e por isso não digo - jamais me despedirei de você. não nas minhas cartas.
pensei muito, tantas coisas. mas, esse muro que existe entre nós é provisório. e podemos dividir as ramas e flores que trepam de um lado e migram para outro - como nossa escrita - e saiba, estou sendo sincera - nada me edificaria mais que conhecer tuas cabeças. mais aquela da boca que mexe, com certeza. porque você é diferente. porque por você tomo um banho de madureza - chuva sem tamanho, mil virtudes - não guardo nenhum segredo, e lanço a história mais honesta que existe dentro de mim. amigo, que saudade de quando te vi. que saudade das poucas frases que trocamos. que estranho não conhecer você.
Escrito por Dani Costa às 18h11 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] presente outro dia encontrei em um criado mudo do meu quarto uma foto amarelada. é de um castelo bonito, num clima frio - mas não muito. as pessoas da foto, de costas ou de lado, usam roupas da década de 1970. eu nasci em 1981 e nunca fui a uma castelo. pensei nisso por dias. até que uma noite sonhei: fui a um sebo duas semanas antes, comprei vários livros... a foto deve ter vindo num deles. e ela se guardou no criado. um castelo. que considerei bem bonito. como herança de alguém que não conheço. Escrito por Dani Costa às 13h09 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] às vezes, sempre que saco de vida. era esse seu pensamento. a rotina já não era tão bendita. o mormaço na varanda na sétima hora do dia. o café com duas colheres bem cheias de açúcar. uma colher mais minguada de leite em pó. toda manhã. o pote de açúcar fica bem no alto. que saco de vida. "posso mudá-lo de lugar, mas não quero". quantos passos levam até o trabalho? uma reta só é o suficiente. são oito minutos. todos os dias. mais dez para voltar, ou quinze, porque o cansaço é maior. às vezes é menos tedioso sentar diante do computador, sempre é duvidoso. às vezes, sempre. os relatórios. as reuniões. aquele bocejo que contaminou todo mundo no meio da tarde. que saco de vida. mormente, uma palavra nova. morrinhento, uma palavra feia. mormente porque lembra que a vida é um saco. a volta à noite, às vezes, é menos fúnebre. com alguma sorte, a rotina se estilhaça no sereno. um filme melhorzinho na HBO, um trecho do livro que excita, o pão francês pode não estar tão duro. "ao menos não durmo com fome". tinha promoção da companhia aérea. ir pras cucuias deve ser divertido. o telefone não toca. nunca mais tocou. por uns tempos ele foi algo monitório - palavra esquecida - mas agora é morto - um mortolóide. que saco de vida. nos fins de semana a mesma reta. o mesmo trabalho. durante as horas de labuta, se for na rua, é bom. conhece muita gente, vive muita coisa, vive a vida dos outros. e resgata algum compromisso com a própria vida. às vezes é assim. sempre também. no mais, as contas estão em cima da mesa. falta filtro para cafeteira. a rotina será quebrada porque não haverá café no mormaço da varanda. às vezes toma uma cerveja. às vezes beija na boca. às vezes usa um vestido. sempre é assim. Escrito por Dani Costa às 11h23 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] fimdafolia o carnaval acabou. durante os quatro dias trabalhei. foi uma mescla de textos que me deixou exausta. apesar de não fazer parte da folia, eu era uma porta-voz dela. era gente pulando para um lado, criança fantasiada para outro, sambas-enredo, praia lotada, purpurina na minha pele, um passinho de dança para acompanhar o entrevistado e sentir a apuração na alma. depois volta, escreve correndo, pede os centímetros na página. é a folia. devo ter escrito isso umas mil vezes. folia. um homicídio quebra a alegria, lá vou eu. sobe um matagal paralelo ao valão. insetos, mau cheiro, cachorro perdido. eu já apurei homicídio um monte de vezes. em nenhum precisei olhar o defunto. não tenho medo da morte. tenho asco da imagem. as coisas vivas me mantém ativa, com energia para correr o dedo no teclado. a morte me desanima. a folia, prefiro a folia. para ver a vítima era preciso subir mais morro. não fui. com as informações do policial já era suficiente. neste caso, especificamente. muitos tiros na cabeça. eu tinha acabado de vir de uma roda de samba na praia. com pessoas felizes. o carnaval é isso. o rapaz estava arrumado. talvez estivesse pronto para curtir em algum bloco, trio elétrico, sorvete com a namorada. ou não. talvez só quisesse morrer ali. pois certos hábitos nos condicionam a um final triste. e isso é totalmente previsível. na volta o carro trepidava no chão do bairro. fim da folia.
Escrito por Dani Costa às 20h00 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] ela hoje de manhã: - ei filha, como você está? - bem mãe, espera um minutinho. (tempo no telefone) então mãe, eu tive uma idéia ótima. - é? qual? - vou fazer um livro. - !!!!!!! - na verdade, já estou fazendo. titia tá me ajudando. - e fala sobre o quê? - são desenhos que eu fiz e gosto muito, e outros que estou criando. também tem coisas que eu escrevo. vou fazer uma capa e titia está ajudando a guardar. - (fungando, pele arrepiada, em silêncio) - sabe mãe, eu posso fazer qualquer coisa. inclusive um livro. depois a gente vê como faz para mostrar para as pessoas. agora eu preciso ir porque estou ocupada. - sim, claro, volte à sua produção.
"Eu posso fazer qualquer coisa", pensei. e minha bebê de quatro anos também. agora preciso bolar um lançamento bem divertido para esta publicação...
Escrito por Dani Costa às 16h13 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] ele cheguei em casa naquele cansaço. de tudo. da vida. dos meus 26 anos, dos compromissos, da agenda berrando o que tenho que cumprir. do jantar que aceitei ir. do vestido velhinho que terá que parecer novo para que eu possa ficar bonita. do meu cabelo ridículo que não vai ajudar em nada se continuar assim. eu estava cansada. entrei no meu quarto e sentei na beira da cama. nove e meia. casa silenciosa. às vezes acho solitário não ouvir nada além do vento castigando a janela. mentira, às vezes não, sempre. mas ele estava lá. no meio do corredor me ria a morenisse escandalosa de praia. um masculino de semblante sereno, o único que permito me olhar bem nos olhos. o único capaz de cafuné todos os dias na minha nuca, de uma gentileza que lhe veio no nascimento. o único a quebrar a solidão nas madrugadas quando sento na varanda com medo. sorri para ele. funguei qualquer coisa que não poderia sair como palavra. ele se aproximava lento me regulando com cuidado, observando e avaliando minha tristeza. ele está acostumado com meu cansaço, mas jamais se acostumará com minha tristeza. porque lhe dói. vejo isso no trato de seu afago comigo. funguei de novo. ele parou na porta. "conheço-o há dois anos e quatro meses". pensei. "como nos amamos". ele sorriu tão espontâneo, tirou a chupeta e interrompeu o silêncio: "princesa, te amo". conheço-o há dois anos e quatro meses, quando o recebi nos braços um bebê possante no choro. mas, estamos juntos desde antes do meu nascimento.
Escrito por Dani Costa às 22h39 [ ] [ envie esta mensagem ] [ link ] |
||||||||||||||||||||||||||||||||||
![]() | |||||||||||||||||||||||||||||||||||